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O Roubo do Seu Talento: Como Derrubar Páginas de “Cortes” e Recuperar a Monetização que é sua por Direito

Estratégias jurídicas avançadas para proteção de imagem e recuperação de ativos financeiros de criadores de conteúdo

O Paradoxo da “Divulgação Gratuita”: A Armadilha da Exploração Parasitária

Muitos criadores de conteúdo, humoristas e artistas são levados a acreditar em um mito perigoso: o de que páginas de “cortes” ou perfis de fãs que replicam seu conteúdo sem autorização são benéficos para sua carreira sob o pretexto de “divulgação gratuita”. Na realidade do mercado digital atual, o que ocorre é uma exploração parasitária. Enquanto o artista investe tempo, equipe, criatividade e capital para produzir uma obra, terceiros se apropriam dos momentos de maior engajamento para alimentar canais próprios, desviando o tráfego que deveria pertencer ao canal oficial e, consequentemente, sequestrando a receita publicitária (AdSense) e as oportunidades de patrocínio.

Essa prática não apenas dilui a força da marca do criador, mas gera um prejuízo financeiro direto. Quando um vídeo de um humorista atinge milhões de visualizações em uma página de terceiros, o lucro gerado por aquelas visualizações é depositado na conta do infrator, e não na do detentor do talento. É o que o Direito denomina enriquecimento sem causa, onde o esforço de um serve exclusivamente ao lucro de outro.

A Prática é Legal? O Limite entre o “Fair Use” e o Crime de Pirataria Digital

A proteção do criador de conteúdo no Brasil é robusta e fundamentada em dois pilares principais: a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/98) e o Artigo 20 do Código Civil. A legislação é clara ao estabelecer que cabe exclusivamente ao autor o direito de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou científica.

Muitos infratores tentam se esquivar da responsabilidade alegando o Fair Use (uso justo), conceito importado do direito americano que permite citações curtas para fins de crítica ou estudo. Contudo, no ordenamento jurídico brasileiro, a reprodução de trechos substanciais de vídeos, shows e fotos com o intuito de gerar engajamento e monetização em perfis de terceiros não configura uso justo. Trata-se de violação direta de propriedade intelectual e do direito de imagem, uma vez que a exploração comercial da imagem alheia sem autorização prévia é ilícita, independentemente de haver ou não ofensa à honra.

Estratégias de Combate e Remoção: Do Administrativo ao Extrajudicial

Para retomar o controle do seu patrimônio intelectual, o criador deve agir de forma estratégica e escalonada:

Procedimentos de “Notice and Takedown”

As plataformas (YouTube, Instagram, TikTok) possuem ferramentas de proteção à propriedade intelectual, como o Copyright Match Tool. O primeiro passo é o envio de denúncias fundamentadas para a remoção do conteúdo. Entretanto, em casos de páginas recorrentes, a simples remoção do vídeo é insuficiente, sendo necessária a derrubada do perfil infrator.

Notificação Extrajudicial: A Constituição da Má-Fé

O envio de uma Notificação Extrajudicial elaborada por advogados especializados é um divisor de águas. Ela serve para formalizar a ciência do infrator sobre a ilegalidade cometida. Caso ele continue a postar, fica configurada a má-fé deliberada, o que eleva substancialmente o valor das indenizações em um eventual processo judicial e impede alegações de desconhecimento da lei.

O Processo Judicial: Recuperando o Prejuízo e Punindo o Infrator

Quando a via administrativa não resolve, a Ação de Obrigação de Fazer cumulada com Indenização é o instrumento para garantir a justiça financeira do artista.

A) Tutela de Urgência (Liminar): O Poder Judiciário pode determinar a derrubada imediata da página ou a remoção dos vídeos em um prazo de 24h a 48h, sob pena de multa diária (astreintes) que pode variar de `R$ 500,00` a `R$ 10.000,00` por dia de descumprimento.

B) Danos Morais: Arbitrados pelo uso indevido da imagem e do nome do artista, que tem seu direito de personalidade violado ao ver sua figura associada a perfis que ele não controla.

C) Danos Materiais e Lucros Cessantes: Este é o ponto mais crítico. O advogado deve pleitear que o infrator pague ao artista tudo o que ele lucrou com os vídeos (monetização) e tudo o que o artista deixou de ganhar pelo desvio de tráfego. Em casos de grandes criadores, esses valores podem atingir cifras de centenas de milhares de reais.

Passo a Passo para Judicializar com Sucesso

Para que a ação judicial seja vitoriosa, a produção de provas deve ser técnica e rigorosa:

1. Preservação de Provas (Ata Notarial ou Blockchain): Prints comuns podem ser contestados. É essencial utilizar atas notariais em cartório ou plataformas de registro em blockchain que garantam a integridade e a anterioridade das provas.

2. Evidência de Monetização: Capturar telas que mostrem anúncios rodando nos vídeos do infrator, links de afiliados na “bio” ou parcerias comerciais (publis) realizadas pela página de cortes.

3. Contratação de Especialista: O Direito Digital exige conhecimentos que vão além do Código Civil. É necessário entender de algoritmos, logs de acesso e políticas de termos de uso das Big Techs. Um advogado generalista pode falhar ao não saber como pedir a quebra de sigilo de dados para identificar o dono da página infratora.

O Destino do Conteúdo e dos Seguidores

Em casos onde o perfil infrator se passa pelo artista (perfil fake), a justiça pode determinar não apenas a exclusão, mas a transferência da titularidade da conta para o artista original, transformando um problema em um ativo de crescimento. Caso a transferência não seja tecnicamente possível ou o perfil seja meramente de cortes, a exclusão definitiva é a regra para proteger o público de possíveis golpes e garantir que a audiência se concentre nos canais oficiais.

Seu Conteúdo é seu Patrimônio

O talento de um artista não pode servir de combustível para o enriquecimento ilícito de terceiros. Cada visualização em uma página de cortes não autorizada é um centavo retirado do bolso de quem realmente criou a obra. Proteger seu conteúdo é proteger sua subsistência e o futuro da sua carreira.

Fique alerta, se você identificou páginas de cortes ou perfis fakes lucrando com sua imagem, não tome medidas precipitadas que possam alertar o infrator a apagar as provas. Procure imediatamente um advogado especializado em Direito Digital de sua confiança para realizar a preservação técnica dos dados e iniciar a recuperação dos seus direitos.

Por KELLY GONÇALVES, sócia fundadora e Head do Departamento de Fashion Law e Influencer do TGA ADVOGADOS.